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III Fórum Nacional sobre Câncer aborda padronização do atendimento, ampliação às informações e humanização dos tratamentos

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pdr 0317A segunda mesa do III Fórum Nacional sobre o Câncer foi moderada pelo médico Jorge Sayde, do Ministério da Saúde. O especialista afirmou que o acesso à informação ainda é a melhor "arma" contra o câncer e ressaltou a importância de fóruns como os realizados pelo Instituto. Para abrir as discussões dessa etapa, o coordenador geral da Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Sandro José Martins, defendeu que há inúmeros desafios na política pública oncológica no Brasil. “Dentre eles a padronização do atendimento e ampliação da cobertura, em especial, da quimioterapia”, explicou.

Com os dados disponíveis atualmente, Sandro mostrou em sua palestra que a carga sanitária representada pelo câncer é grande e deve ser maior do que os números oficiais dispõem. “E isso vai aumentar nos próximos anos, dado que o envelhecimento é um fato e o câncer está associado a isso. Manter uma dieta saudável, controlar aumento de peso e abster-se de cigarro são orientações que ajudam evitar vários tipos de câncer”, completou. Para ele, a ideia de prevenção do câncer deve ser sempre uma preocupação inicial quando se fala em política de controle dessa enfermidade. “O mais difícil hoje é organizar o trajeto das pessoas no sistema de saúde, essa tarefa precisa ser otimizada.”

Sandro José também avaliou como a organização do sistema deve permitir o acesso às estruturas completas. “Ainda há estados onde o número de hospitais e a capacidade de atendimento em cirurgia e quimioterapia são insuficientes. A radioterapia e a diferença no atendimento em diversos postos é outro enorme desafio. É necessário haver uma padronização, lembrando que a organização do SUS depende da ação do gestor local”, definiu.

A oncologista Karime Kalil Machado, do hospital Sírio-Libanes, participou do Fórum e sua palestra abordou as perspectivas para o tratamento da doença no País nos próximos 30 anos. “Nos últimos anos de carreira pude perceber os dois lados da moeda, os serviços público e privado. De um lado temos a oferta de bons serviços e do outro todas as dificuldades que vão de encontro à 75% da população”, lamentou Karime. Nos últimos três anos, a médica trabalhou em serviço de referência norte-americana, onde a incorporação de novas tecnologias já é uma realidade.

“E isso serve tanto pra diagnóstico como para tratamento. Eu quero falar do que gostaria de ver daqui 30 anos, ver qualidade tanto no serviço público quanto no privado. Temos uma ferramenta pouco utilizada no combate ao câncer que é educar a população. Ela precisa tomar posse de sua saúde e reconhecer sinais de alarme e procurar ajuda médica. Isso vai promover ótimos resultados daqui uns anos”, enfatizou Karime. Segundo ela, em um futuro próximo, provavelmente será possível detectar diversos tipos de câncer através de uma simples amostra. “Assim poderemos tratar a doença mais cedo e aumentar as chances de cura.”

Para o presidente interino da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Pedro Bernardo, existe um alerta para a diminuição dos recursos públicos investidos no tratamento do câncer no Brasil. “Esse fato começa a se tornar preocupante. Como já foi dito aqui, temos uma previsão do aumento em torno de 600 mil novos casos de câncer por ano. O Ministério da Saúde terá dificuldade em trabalhar para atender toda a população no que diz respeito à toda temática debatida nesse Fórum”, avaliou.

Ainda na fala de Pedro, o que o Brasil deve pensar grande daqui pra frente é na autonomia de decisões técnicas e cientificas sobre políticas de Estado, de forma plena, sem influências políticas. “Também é importante ampliar participação de profissionais de saúde e permitir participação de empresas detentoras de tecnologia”, destacou.

O oncologista clínico, Daniel Marques, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) abordou o cuidado com o paciente oncológico pela ótica de cinco vertentes. “A rede pública ainda carece de suporte clínico aos pacientes. Diante disso, temos a prevenção, que é a alma do negócio; o diagnóstico precoce, onde carecemos de mais agilidade no processo como um todo; o tratamento, pelo qual vivemos um ‘boom’ com surgimento de novas modalidades; o suporte clínico aos pacientes com câncer, com equipe completa; e por fim o estímulo à formação de profissionais capacitados para atender o sistema. Devemos construir soluções mais realistas, com foco nas pesquisas e estudos clínicos".

A presidente e diretora do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, encerrou a Mesa Técnica do III Fórum Nacional sobre Câncer. Ela afirmou que a medicina está num bom patamar científico e defendeu humanização e personalização do tratamento. “Minha fala está focada no paciente, nos desafios e todos os problemas que acompanhamos dia a dia. Precisamos mostrar para população que temos possibilidades de cura e boas chances de manter a qualidade de vida. As pessoas se escondem do resultado de exames. Hoje essa doença tem outra realidade”, explicou.

Luciana reforçou que é responsabilidade dos profissionais de saúde e do Estado promoverem outra ótica à população. “Temos uma epidemia de câncer por vir, por conta do o envelhecimento da população, e precisamos nos preparar. Diante de uma suspeita da doença, o paciente enfrenta uma série de barreiras e muitos não sabem qual caminho tomar. É preciso iluminar esse trajeto”. Ela lembrou que o Instituto Oncoguia está trabalhando em um projeto de lei apelidado de “Waze da Saúde”. “O objetivo é que as filas para diagnósticos e tratamentos do câncer tenham prazos e números, e assim poderemos monitorar a doença em âmbito nacional”, explicou.

Para ela, é de grande importância enfatizar as pesquisas clínicas para que os pacientes tenham ainda mais opções de tratamento. “Cuidar da dor dos pacientes é muito trabalhoso e precisamos falar na humanização desse processo. Isso faz falta no dia a dia de quem enfrenta as mazelas da doença. Muitos queriam ter um ‘onco (oncologista) para chamar de meu’. O importante é batalhar por mais tempo de vida e dar esperanças ao paciente”, finalizou.

Ao fim do evento, o médico Jorge Sayde também reforçou a questão cultural do Brasil, onde o medo do câncer e as dificuldades do tratamento muitas vezes levam as pessoas a fugirem da informação. “Dentre tantas lutas que encontramos, infelizmente temos que abordar as decisões políticas e a gestão pública, que entram numa dinâmica cada vez maior com relação ao diagnóstico. Mas estou satisfeito com esse evento, e conseguimos conduzir o Fórum com muita leveza. Tenho certeza que todos aqui sairão com uma carga de conhecimento ainda maior no que diz respeito ao câncer no Brasil”, encerrou.
 
RP/TC
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